Como descobri o grafite - I
Crônica por Antonio Marcos Pereira
Outro dia me peguei pensando em como descobri o grafite. Qual foi o momento em que passei a prestar atenção nos grafites? Parece que a coisa está aí desde que o mundo é mundo pra mim.
Outro dia me peguei pensando em como descobri o grafite. Qual foi o momento em que passei a prestar atenção nos grafites? Parece que a coisa está aí desde que o mundo é mundo pra mim.
Mas puxando um pouco pela memória
recordei de um fato fundamental na minha história com o grafite e também
importante na história do grafite em Salvador: é o Faustino.
Moçada de hoje, na casa dos vinte
anos, vai achar papo de dinossauro, e é mesmo coisa antiga, do início dos anos
80: lembro de ver aquelas frases nos muros, todas com o mesmo personagem, e
falando das coisas que ele fazia. "Faustino tem uma pasta 007",
"Faustino faz as unhas", "Faustino guarda uma calculadora na capanga",
"Faustino comprou um terreno na Ilha" e a inesquecível e enigmática
"Faustino coloca plástico "fofinho"". Não tinha arte a não
ser o texto, que era feito com caracteres comuns, letra de forma simples: era
coisa pra todo mundo ler mesmo, pra todo mundo entender. E era só a frase, sem
assinatura, sem outra referência: spray preto no muro branco.
No início dos anos 80 eu tinha dez,
doze anos, e já tava andando pela cidade, pegava ônibus, saía do bairro pra ir
pra escola, ir na biblioteca, e nesses passeios eu via essas frases, e elas me
chamavam atenção. Eu entendia a maioria delas: salvo a do plástico
"fofinho" (até hoje não sei o que era isso), as outras falavam de
coisas que apareciam em minha vida. Não sabia quem era Faustino, mas sabia que
meu pai tinha uma capanga onde ele guardava os documentos dele, um primo meu
fazia as unhas na manicure, e tinha um tio que era possuido pela ideia de
comprar um terreno na Ilha, sempre falava a respeito. Compreendo hoje que
Faustino era um codinome pra todos eles, pessoas da classe média baixa de
Salvador, que no personagem revelavam seus hábitos, suas particularidades, suas
ambições. O grafiteiro registrava esses hábitos com sua observação e os
devolvia à cidade na forma de fatos da vida desse personagem que, embora fosse
fictício, era próximo de uma realidade que era também a minha. Isso já me
revelava algo do que eu acho ser parte da magia do grafite: está aí, aos olhos
de todos, comenta e critica o que se vê, e as grandes produções ficam na memória -
como ficou, pra mim, o Faustino.
Assim, comecei a prestar atenção no
grafite, coincidentemente, com esse que é um dos marcos do início da prática
aqui em Salvador, o Faustino, do grafiteiro Miguel Cordeiro ( Como você pode ver um pouco sobre ele aqui, por volta de 2:48). E só muitos anos depois fui ver outra
forma de grafite, produções visuais mais elaboradas, ambiciosas e sofisticadas,
com muita cor - mas isso é assunto pra outra postagem.
Aí, AM! Gostei muito do texto. Leve. Simples e trazendo algo que hoje está intrínseco à vida de Salvador! Abçs!
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