No dia do grafite, um álbum de pixação
Ontem
as redes sociais me avisaram que hoje, 27 de março, era o Dia
Internacional do Grafite. Fiquei surpreso - quem terá inventado
isso? - e culpado - pois, como pessoa interessada no assunto, devia
saber.
Mas vivendo e aprendendo: também na internet, li que a data foi
selecionada como uma homenagem póstuma ao pioneiro do grafite
brasileiro, Alex Vallauri, que morreu em 27 de março de 1987.
Correndo daqui pra li na internet em torno desse assunto, me deparei
com uma matéria na revista VICE, uma revista internacional, voltada
pra cultura urbana, que faz um tempo tem uma edição brasileira.
Nela, o editor André Maleronka comenta um objeto muito notável: um
álbum
de figurinhas de pixação publicado em São Paulo.
Lembro
de ter herdado de um tio meu um álbum
de figurinhas que ele tinha colecionado até completar: era como uma
enciclopédia, com figuras sobre a natureza, o mundo animal, coisas
assim. Mais tarde, lembro de colecionar álbuns
de jogadores de futebol: eu nunca tive muito entusiasmo nem pelo
futebol, nem pelas coleções, mas todos os meus colegas tinham, e eu
entrava na onda da coleção também, e entrar na onda era
entusiasmante. Colecionar as figurinhas gerava muito assunto, havia
figurinhas muito fáceis e outras muito difíceis - e, claro, aquelas
que ninguém tinha, que ficavam faltando para completar o álbum.
Trocar figurinhas, colar figurinhas, isso era parte da socialização
dos garotos da escola que eu frequentava.
Pensei
em como a existência do album de figurinhas da pixação mostrado
por Maleronka é prova do valor cultural da prática. É preciso uma
galera que acredite na ideia e decida produzir o álbum,
levando a coisa da ideia até a banca de revista: não é pouco
trabalho isso, principalmente se a coisa não é feita por uma grande
editora, mas sim num esquema meio artesanal e clandestino. Além
disso, num projeto como esse, quem leva a cabo o projeto tem de
acreditar que há público, há uma audiência interessada no
produto, e interessada o suficiente para desembolsar os tostões
necessários para adquirir o álbum
e seguir comprando as figurinhas. E, como essa atividade é do tipo
que puxa o encontro das pessoas, é preciso apostar que essa galera
tem coesão o suficiente pra se encontrar e, literalmente, trocar
figurinhas.
Olho
para as fotos reproduzidas na matéria de Maleronka e penso que sua
existência é quase um milagre: pixos feitos por sabe-se lá quem em
São Paulo anos atrás sobrevivendo no arquivo improvável de um
álbum
de figurinhas obscuro. Quem tirou as fotos? Será que os pixadores
que fizeram os pixos colecionavam também o álbum,
para ver a si mesmos ali? Ou para ver seus amigos e chegados, ou até
desafetos, ali? Imagino um carinha tirando onda, mostrando o álbum,
mostrando a foto do seu pixo, do pixo que ele fez. Tem muita coisa
aí, nesse produto obscuro e meio esquecido que é esse álbum.
É prova da força da prática, e prova também de que há muito
engenho e arte no mundo da arte de rua - coisa que o Alex Vallauri
sabia, coisa em que ele acreditava, e nada me parece mais oportuno
como homenagem pro pioneiro do que a existência desse álbum,
mais uma evidência da vida da arte das ruas.
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