quinta-feira, março 28, 2013

No dia do grafite, um álbum de pixação




Ontem as redes sociais me avisaram que hoje, 27 de março, era o Dia Internacional do Grafite. Fiquei surpreso - quem terá inventado isso? - e culpado - pois, como pessoa interessada no assunto, devia saber. Mas vivendo e aprendendo: também na internet, li que a data foi selecionada como uma homenagem póstuma ao pioneiro do grafite brasileiro, Alex Vallauri, que morreu em 27 de março de 1987. Correndo daqui pra li na internet em torno desse assunto, me deparei com uma matéria na revista VICE, uma revista internacional, voltada pra cultura urbana, que faz um tempo tem uma edição brasileira. Nela, o editor André Maleronka comenta um objeto muito notável: um álbum de figurinhas de pixação publicado em São Paulo. 

Lembro de ter herdado de um tio meu um álbum de figurinhas que ele tinha colecionado até completar: era como uma enciclopédia, com figuras sobre a natureza, o mundo animal, coisas assim. Mais tarde, lembro de colecionar álbuns de jogadores de futebol: eu nunca tive muito entusiasmo nem pelo futebol, nem pelas coleções, mas todos os meus colegas tinham, e eu entrava na onda da coleção também, e entrar na onda era entusiasmante. Colecionar as figurinhas gerava muito assunto, havia figurinhas muito fáceis e outras muito difíceis - e, claro, aquelas que ninguém tinha, que ficavam faltando para completar o álbum. Trocar figurinhas, colar figurinhas, isso era parte da socialização dos garotos da escola que eu frequentava.


Pensei em como a existência do album de figurinhas da pixação mostrado por Maleronka é prova do valor cultural da prática. É preciso uma galera que acredite na ideia e decida produzir o álbum, levando a coisa da ideia até a banca de revista: não é pouco trabalho isso, principalmente se a coisa não é feita por uma grande editora, mas sim num esquema meio artesanal e clandestino. Além disso, num projeto como esse, quem leva a cabo o projeto tem de acreditar que há público, há uma audiência interessada no produto, e interessada o suficiente para desembolsar os tostões necessários para adquirir o álbum e seguir comprando as figurinhas. E, como essa atividade é do tipo que puxa o encontro das pessoas, é preciso apostar que essa galera tem coesão o suficiente pra se encontrar e, literalmente, trocar figurinhas. 


Olho para as fotos reproduzidas na matéria de Maleronka e penso que sua existência é quase um milagre: pixos feitos por sabe-se lá quem em São Paulo anos atrás sobrevivendo no arquivo improvável de um álbum de figurinhas obscuro. Quem tirou as fotos? Será que os pixadores que fizeram os pixos colecionavam também o álbum, para ver a si mesmos ali? Ou para ver seus amigos e chegados, ou até desafetos, ali? Imagino um carinha tirando onda, mostrando o álbum, mostrando a foto do seu pixo, do pixo que ele fez. Tem muita coisa aí, nesse produto obscuro e meio esquecido que é esse álbum. É prova da força da prática, e prova também de que há muito engenho e arte no mundo da arte de rua - coisa que o Alex Vallauri sabia, coisa em que ele acreditava, e nada me parece mais oportuno como homenagem pro pioneiro do que a existência desse álbum, mais uma evidência da vida da arte das ruas.

0 comentários:

Postar um comentário