quarta-feira, março 13, 2013

O SURGIMENTO DE UMA TAG


 Crônica por Evanilton Gonçalves

Eu tinha uns 11 anos quando tive meus primeiros contatos com a pichação. Eu era um moleque franzino que acabara de entrar na escola pública. Havia feito meu primário numa pequena escola particular próximo de onde eu morava.  A transição foi um grande choque para mim, no primeiro dia de aula, presenciei brigas, percebi grupos que se identificavam e tinham rivais. As paredes estavam quase totalmente cobertas de diversas inscrições e riscos que eu não conseguia decifrar. Minha saudação de boas vindas ao ensino público foi premiada com bofetadas na cabeça. Após o final da primeira aula, o tal corredor polonês sempre era formado por alunos que já conviviam naquele espaço. Inevitavelmente meus olhos se encheram de lágrimas diante de tal cenário, não queria ficar naquele colégio, tive medo, mas não escolha – e foi a partir daí que comecei a entender as regras e me adaptar ao meio.

Conheci dois sujeitos que eram temidos por muitos e adorados pelas meninas. Esses dois faziam o que hoje costumamos chamar de pichação, geralmente riscavam as paredes com giz de cera e escreviam suas Tags, assinatura que os identificava diante dos pares, de outros sujeitos que também produziam aquelas inscrições. Eles escreviam junto ao nome, a sigla de suas crews, grupo ao qual faziam parte. Eles não se intimidavam, riscavam as paredes na frente de alguns alunos, isso era sinônimo de atitude e logo gerava respeito. Eu ficava intrigado com aquele exercício que se repetia, já sabia identificar o nome deles em outros locais fora da escola. As pessoas comentavam – você viu, fulano pichou tal lugar, ou fulano é bem divulgado etc. O meu desejo de fazer parte daquilo foi aumentando, por isso, busquei me aproximar desses sujeitos que me passaram as manhas, eles me ensinaram o básico – você precisa ter uma Tag, um nome que você deve espalhar por todo canto para ser respeitado, você precisa também criar o nome de uma Crew. Não lembro mais quais eram as Tags e crews desses meus novos amigos, mas lembro de que eles me apresentaram também algo novo, levavam consigo várias páginas de exames de radiografia, nelas faziam desenhos e cortavam moldes vazados, era o stencil se apresentando para mim, uma forma de produzir desenhos mais rapidamente na parede, para aplicar o desenho eles usavam tinta spray, produto caro e de difícil acesso naquela época.

Eu tive acesso a um minidicionário de inglês/português e comecei a folhear de modo aleatório, tinha em mente o seguinte – meu nome teria que ser pequeno, pois seria mais ágil escrevê-lo na parede. Vários nomes que passei a ler nos muros não tinham mais do que quatro ou cinco letras. Muitos nomes começavam com “S” e era uma letra que eu achava muito bonita. Acabei me debruçando mais nessa sessão do dicionário, o que me levou a palavra “SLINK”, que traduzindo significa aborto. Eu sempre fui criativo e comecei a fazer analogias com a tradução. Associei o significado da palavra aborto ao governo que diante de nós, pobres jovens de periferia, cruzavam os braços. Tinha uma noção de falta de assistência e me sentia revoltado com tanta desigualdade. Pensava com meus botões: o governo deveria cuidar de mim, mas preferiu me “abortar”. Eles querem me excluir, mas eu existo, vou mostrar que existo. Eu não gostava da pronuncia com o “N”, então removi da minha Tag. Passei a ser conhecido por meus colegas de escola por “SLIK”.  Eu me sentia mais corajoso depois que riscava meu nome na parede e isso se repetiu por muitos anos. Ao final do ensino médio, conheci mais de perto o grafite, a pichação havia me trazido muitos problemas e optei por ser conhecido como grafiteiro. Eu já tinha certa habilidade com desenhos, fazia pequenos murais para a escola onde minha mãe trabalhava como alfabetizadora. Saí para as ruas algumas vezes para pintar, sozinho ou acompanhado de amigos do bairro que movimentavam a cena com bombs, grafites ilegais feitos rapidamente e geralmente com letras gordas e pouca tinha.

Em uma festa na quadra do meu bairro, produzida por ativistas do movimento Hip-Hop, fiquei sabendo, através de um amigo e do conhecido grafiteiro e pichador Pinel, que já existia um sujeito que assinava “SLIK”. Naquele momento, fiquei confuso e triste, eu gostava muito do meu nome e não queria deixa-lo por nada, havia ali uma identificação muito forte, de anos. Pinel me disse: “o cara é das antigas, se te pegar você tá ferrado, acho que ele parou, mas você tem que respeitar, ele tem uma pichação antiga lá na Pituba , bem no alto, numa concessionária”.  Eu busquei novamente o dicionário, dessa vez o português, nenhuma palavra me agradava, queria mesmo manter o meu nome. Nas idas a casa desse meu amigo que também era grafiteiro, ele me disse: “você pode colocar o número 2 ao final da sua Tag, muita gente faz isso, é sinal de respeito também, mostra que existiu o número 1”. Eu fiquei muito alegre com essa sugestão e prontamente adotei o 2 ao final da minha Tag. Desde então passei a assinar SLIK2.



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