A poesia do Acaso (na transversal da cidade) – Cristina Fonseca
O grafite e a pichação são
fenômenos hoje endêmicos nas grandes metrópoles. Surgem, muitas vezes, como um
passe de mágica, e, por isso, geram estranhamento, mas também encantamento para
os transeuntes, os quais convivem invariavelmente com tais grafismos urbanos. O
livro A Poesia do Acaso da visionária,
Cristina Fonseca parece ter conseguido captar isso. O que nos sugere a
princípio sustentar essa afirmação é a primeira imagem apresentada no livro:
Em A
Poesia do Acaso, livro publicado em 1982, muito antes da explosão
multissemiótica nas ruas pelos grafites, Fonseca retrata a poética dos muros. Em
sua nota introdutória nos lança uma pergunta fulminante – “O que nos leva agora
a riscar PALAVRAS OBJETOS DINÂMICOS NAS PAREDES?” (Fonseca, 82, p. 10). Assim,
intercalando o seu texto com letras garrafais ela brinca com as palavras, ao
passo que nos apresenta belas reflexões acerca dos textos nas paredes. A partir
de um retrospecto que atualmente tornou-se clássico, desde Paris com as
inscrições produzidas pelos movimentos estudantis de 68, passando pelos
escritores de rua que transbordavam dos guetos para os Metrôs de NY em 1972,
percurso em que vários autores ao final chegam a caminhos diferentes, Fonseca
chega aos muros de São Paulo, década de 80.
A Poesia do Acaso é um
livro diferente, uma mistura de documento e criação literária, é um
livro-objeto. Um flagra das passagens pelos espaços urbanos. Um olhar sobre
esses grafo-riscos que, mais tarde, invadiriam quase a totalidade da paisagem
das metrópoles pelo mundo. A obra de Cristina Fonseca é sensível, apresenta
textos sintéticos e cheios de poética, além de ser recheado de imagens, e
frases que perpassam os vários períodos históricos citados anteriormente. O
livro é composto por nove capítulos, um deles dedicado a uma entrevista com
Décio Pignatari, que aborda os contextos culturais desse espaço entre poesia
concreta, poesia verbal e o sprayação.
Acredito que seja um
livro de leitura obrigatória para os estudantes ou amantes das escritas
urbanas; da multissemiótica dos grafites; dos potentes verbos codificados da
pichação. Em tempos em que tanto grafite quanto pichação invadem galerias e a
Universidade, tornando-se, corpus de pesquisa e tema de debates, nada mais urgente,
do que a leitura de obras como essa que trazem outras luzes sobre essa expressões
urbanas e seu convívio com a cidade.
--
FONSECA, Cristina. A poesia do acaso (na transversal da cidade). São Paulo: T. A.
Queiroz Editor, 1982. 118 p.

O livro está para ser relançado em São Paulo, aguardem novidades!!
ResponderExcluirPor favor. quando será relançado? Estou a procura dele e não consegui em nenhuma livraria. Obrigada
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