O ESCRITOR FANTASMA E OS MUROS DA CIDADE – PARTE II
No texto anterior, relatamos a felicidade em flagrar a ação do “escritor fantasma” de Salvador. Apresentamos alguns registros fotográficos e discorremos um pouco sobre a prática desse sujeito cheio de atitude. Uma questão que surge é: como categorizar um sujeito que produz o seus textos com giz, de forma legível, e, aparentemente, com foco estritamente político? Ele é um pichador, um grafiteiro?
Sobre essa questão, Franco em sua dissertação “Iconografias da Metrópole – Grafiteiros e Pixadores Representando o Contemporâneo”, afirma:
“vemos no Brasil da virada da década de 1970 para a de 1980 a existência de pessoas que protestavam contra a ditadura militar, ao mesmo tempo em que havia aqueles que simplesmente ocupavam a paisagem urbana com inscrições poéticas, como era o caso de Alex Vallauri, do grupo Tupi-não-dá, de Rui Amaral, de Waldemar Zaidler, de Carlos Matuck e de Hudinilso Junior (todos com origem na classe média e com formação universitária). Esta cena ocorria antes mesmo da chegada da referência do grafite nova-iorquino. Mas, ao reivindicarem para si o nome de “grafiteiros”, estes artistas considerados pioneiros encontraram resistências da parte de quem pesquisou a especificidade do grafite tal como surgira em Nova York.” (FRANCO, 2009, p. 33).
Não obstante, o sujeito que ganha espaço para falar um pouco de sua prática, em meio ao som do cortejo do dois de julho, parece não se preocupar com tal categorização, seu objetivo é denunciar os desvios éticos de nossos governantes. Sinalizar obras corruptas. Neste vídeo, por exemplo, sua inscrição se dá, justamente, em uma obra que se arrasta anos a fio - um viaduto em construção com erro de cálculo que o impede de se encaixar com a ladeira na região da Liberdade. Indignado, ele nos escreve: “Obras corruptas, não” e nos lança uma questionamento - “até quando?”
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