Resenha do vídeo - Irmãos de Tinta
Resenha do professor Antonio Marcos Pereira
Depois que voltei pra Salvador, em 2008, me impressionou como havia muito mais - e melhor, em minha opinião - trabalho de inscrição nas ruas comparado com o que lembrava da época em que fui embora daqui, em 97. Rua cheia de grafite e pixo: muita coisa diferente, muita interferência. Achei bom, achei sinal de que a cidade tinha algo a dizer, e estava dizendo, e isso dá a real do início do interesse e motivação que me transformam, na parceria com o Evanilton desde 2012, em uma pessoa que "estuda" grafite.
Estou longe de ser daqueles que adoram Salvador, ufanistas que mascaram os problemas crônicos da cidade, que pode ser uma mãe bem vilã, em benefício de uma imagem mítica de paraíso interétnico, "Roma Negra". Acho que Salvador é uma cidade cheia de problemas, preconceituosa, rude demais com quem é pobre, e o jeito como muitos habitantes adoram incondicionalmente tudo que é daqui me dá asco também. Mas, há coisa de um mês, estava em São Paulo, conversando com amigos de lá ou que moram lá, e falava sobre como eu gosto do grafite paulistano. Um cara que tava na mesma mesa que eu, e que eu mal conhecia, falou, meio que tirando "É, isso é coisa de São Paulo mesmo, isso é só aqui" e eu, com meus botões, pensei, "Tu tá por fora, Mané". Porque eu sei que em Salvador tem grafite muito bom, que não fica a dever nada - nada mesmo - ao melhor da produção de São Paulo. Os caras daqui podem não ter a fama e a fortuna que os de lá tem - nenhuma novidade, esse país trata o sudeste melhor que todo o resto. Mas os caras daqui tem a manha, tem o estilo, a assinatura, e a vibe certa da ousadia, da vontade radical de fazer acontecer mesmo na maior precariedade.
Esse documentário, Irmãos de Tinta, me deixou muito feliz em parte por isso: por me mostrar, juntos, três dos grafiteiros que mais admiro aqui, Core, SuperAfro e Dimak. São três artistas com marcas completamente diferentes: ver os três juntos é uma boa pra mostrar pra qualquer ignorante que acha que grafite é tudo igual. Cada um com sua assinatura, seu jeito, sua paleta de cores, suas obsessões semióticas e temáticas. A sério, a única coisa que vejo em comum é o fato dos três serem igualmente excelentes: olhando pro trabalho dos três não dá pra falar em uma "escola baiana" de grafite. Os trabalhos reclamam um olhar individualizado, que a gente preste atenção nos detalhes e, depois, no que cada grafiteiro vai montando a cada grafite que faz, a cada muro que pinta. Esses caras comandam a vala, mandam muito - e que o vídeo mostre isso bem é mérito de quem o fez, de quem o concebeu e gravou, e editou e postou (que eu nem sei quem são direito, só aparece no final um crédito dizendo "de Chiara Chianese e Ivan Corbucci").
Tem também o fato de ser um vídeo postado no YouTube, o que faz com que o trabalho deles tenha uma outra ordem de visibilidade e possibilidade de divulgação: você vê o trabalho deles no vídeo, mesmo que não esteja, como eu estou todo dia, perambulando de ônibus por Salvador. Vê também as fisionomias dos artistas, e isso é bacana, ver os caras falando de si mesmos, de suas coisas: agora, se eu passar por um deles na rua, vou chamar pelo nome! Além disso, o vídeo documenta esse momento do grafite aqui: arte de rua, sempre reservada só na memória de seus praticantes, agora já pode ser visitada nesses arquivos aí, que com as facilidades de fazer imagem de hoje em dia a gente vai gerando.
O vídeo funciona também por aludir a coisas que acho importantes pra entender o grafite, como ele funciona como esses artistas operam e se compreendem. Tem coisa pra discutir sobre a relação entre o grafite e a profissionalização na área de artes (belas artes, design, tatuagem, trabalho de MC), tem o velho debate sobre a distinção - ainda muito relevante entre nós, e que sempre vale discutir e repensar - entre grafite e pichação. Tem coisa pacas pra pensar aí.
O mais importante, acho, é que vídeo funciona, dá certo, apresenta bem os caras, e a brevidade (tem só sete minutos) não é ruim não: a gente termina o vídeo querendo ver mais, e melhor, do trabalho de Core, SuperAfro, e Dimak. E a rua tá aí pra isso, é só prestar atenção.
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