OcupaAção – Grafite em debate e na prática
O projeto OcupaAção , aprovado pelo edital Setorial de Artes Visuais 2012 da Fundação Cultural do Estado e produto do trabalho conjunto das artistas Talitha Andrade, Tina Melo e Roberta Nascimento, em sua segunda edição, apresentou na última rodada uma rica mesa de debate sobre o grafite, cujo título foi: “Graffiti em movimento: trajetos e perspectivas”.
A mesa foi composta pelos artistas Fael1°, Sista Kátia, Naara Nascimento e Marcos Costa. Na ocasião, os convidados puderam apresentar, conforme o título, os seus respectivos trajetos no grafite, bem como suas compreensões acerca dessa temática complexa e que permite o engendramento de diferentes perspectivas. Assim, para o grafiteiro, Fael1º, “o grafite é um estilo de vida”. Ele se pauta no conceito de Arte Pública:
“O sentido corrente do conceito refere-se à arte realizada fora dos espaços tradicionalmente dedicados a ela, os museus e galerias. Fala-se de uma arte em espaços públicos, ainda que o termo possa designar também interferências artísticas em espaços privados, como hospitais e aeroportos. A ideia geral é de que se trata de arte fisicamente acessível, que modifica a paisagem circundante, de modo permanente ou temporário”. (Enciclopédia Itaú Cultura Artes Visuais)
Marcos Costa, com estrada de 15 anos no grafite, compreende essa arte como uma ferramenta importante de diálogo com a sociedade. Desse modo, atua em diferentes projetos, dentro e fora da capital baiana. Atualmente, desenvolve também pinturas caracterizadas como Afrograffiti - imagens que refletem aspectos da cultura e da identidade africana e afro-brasileiros, como religião, costumes, saberes etc. Para ele, o grafite dialoga com o que a cidade oferece.
Sista K, conhecida também como Sista Kátia, é ativista do movimento hip-hop, feminista e vegana. Por isso, segundo ela, o grafite está associado ao movimento surgido nos guetos nova-iorquinos, e, apesar de enxergarmos o grafite sendo produzido por sujeitos que não se associam ao hip-hop, é lá onde sua identidade é forjada. Ela é responsável por dar aulas de defesa pessoal para grafiteiras (utilizando as próprias ferramentas do grafite, como a lata de spray). Expressando o caráter político de suas obras, desenha personagens femininas gordinhas, a fim de romper com os padrões estéticos que imperam atualmente em nossa sociedade. Também se posiciona ideologicamente sobre a questão do alimento e expõe sua postura vegana.
Naara Nascimento, estudante de Belas Artes, afirmou utilizar os muros da cidade como mais um dos suportes de seu trabalho, mas não se vê como uma grafiteira. Ela apresentou à mesa o termo grafitar, retirado do dicionário, com o intuito de ampliar a relação das inscrições com a cidade. De modo que, para ela, grafitar é: “Escrever, rabiscar ou pintar com grafismos sobre muros, paredes, fachadas de casas ou edifícios, postes, viadutos, pontes, banheiros públicos, móveis escolares e outros espaços públicos ou privados que ofereçam visibilidade às mensagens dos grafiteiros, de conteúdo inconformista, político, crítico da sociedade ou de mero diálogo com os transeuntes.”
Sem dúvidas, o debate rendeu boas reflexões e a equipe do OcupAção está de parabéns por fomentar a atividade crítica nas artes visuais.
Na segunda parte da última rodada, dia 20, foi realizada a oficina com a grafiteira Sista K – “Introdução à arte do Graffiti”. O espaço foi oportuno para não só multiplicar os conhecimentos acerca da história e técnicas do grafite, mas também para ampliar o diálogo com um público diferenciado, idosos ligados à casa irmã Dulce. Além desses simpáticos alunos que criaram suas Tags e mandaram ver nos seus esboços em papel, a oficina contou predominantemente com o público feminino, o que é, sem dúvidas, um grande saldo positivo, já que as mulheres ainda atuam pouco na cena do grafite soteropolitano.
| A grafiteira Sista K apresentando diferentes marcas de lata de spray. |

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