O que tem o grafite a ver com letramento?
![]() |
| Imagem da internet |
Muitos que acompanham este blog
já devem ter identificado o nosso interesse particular pelo grafite. Sabem
também tratar-se de uma pesquisa acadêmica desenvolvida na UFBA - Universidade
Federal da Bahia.
Primeiro, é importante frisar
que nós apreciamos o grafite e todas as linguagens presentes nos muros, por
isso nos debruçamos sobre essa temática. Segundo, nós da área de Letras, compreendemos
o grafite como texto, recheado de signos (seja verbal ou não verbal), e que nos
serve, portanto, como objeto de pesquisa.
Para entender a relação entre
grafite e letramento, precisamos esclarecer, mesmo que brevemente, o conceito
de letramento, em especial, de letramento vernacular, ao qual associamos o
grafite.
Segundo Magda Soares,
pesquisadora dedicada ao estudo do letramento, o conceito de letramento começa
a ser usado a partir do momento em que o conceito de alfabetização tornou-se
insatisfatório para se compreender a relação dos sujeitos com as práticas de leitura
e escrita. Ou seja, o conceito vem para ampliar a noção de leitura e escrita. Ao compreender tal prática dentro da
perspectiva antropológica, por exemplo, conforme Soares (2004), entenderemos que o letramento corresponde às
práticas de leitura e escrita e aos valores que são conferidos a tais práticas
em determinada cultura.
Através do conceito de letramento, podemos entender melhor como os sujeitos fazem
uso da leitura e da escrita na sociedade. Como vivemos numa sociedade pautada
cada vez mais na cultura escrita, é comum que se multipliquem as demandas por
práticas de leitura e de escrita não mais limitadas ao suporte de papel, mas
também em outros suportes como os muros, que servem de suporte ao grafite. De modo que, trona-se insuficiente ser apenas
alfabetizado, ao menos, nos termos tradicionais. Uma outra questão que nos
levou a estudar o grafite, foi o fato de se perceber a disseminação da escrita
pela cidade. Nesse sentido, Kleiman (2005) teórica que também se dedica ao
estudo do letramento comenta:
[...] a
escrita está por todos os lados, fazendo parte da paisagem cotidiana. Ela se
faz presente através de bilhetes distribuídos por vendedores de balas nas ruas;
do envio de torpedos SMS, de e-mails, de mensagens em redes sociais; de
anúncios publicitários espalhados pelas cidades em pontos de ônibus, outdoors,
etc.; das placas que orientam o trânsito; do caixa eletrônico onde sacamos
dinheiro ou verificamos o extrato da conta; de placas que indicam o preço dos
produtos em supermercados; de letreiros, folhetos; dos grafites, pichações que
se espalham pelos muros das cidades; etc. (KLEIMAN, 2005, p.5,).
Soares vai definir letramento
como sendo o estado em que vive o indivíduo que sabe ler e escrever e exerce as
práticas sociais de leitura e escrita que circulam na sociedade em que vive:
ler jornais, revistas, livros, saber ler e interpretar tabelas, quadros,
formulários, etc. Aqui acrescentamos saber ler e escrever grafite.
Pensar o grafite dentro deste
conceito é compreender as práticas sociais de leitura e de escrita sobre a nova
perspectiva que se tem dado a ela, neste caso, nos referimos aos letramentos
múltiplos (STREET, 2007; ROJO, 2009; KLEIMAN, 1995), já que, como é possível
notar, lidamos atualmente na sociedade com diversas atividades de leitura e
escrita.
Ao entendermos o grafite
inserido na categoria de letramento locais ou vernaculares, percebemos que, como
afirma Rojo (2009), essa manifestação urbana corresponde às práticas de leitura
e escrita que não são reguladas, sistematizadas pelas organizações formais da
sociedade, o que contribui para que sejam frequentemente desvalorizadas
socialmente e tidas como práticas de resistência.
Esperamos que a presente
contribuição, possa fomentar os debates em torno do letramento e da cultura
escrita contemporânea. Ou seja, o propósito evidente deste trabalho foi chamar
a atenção para a necessidade de ampliação de estudo dos letramentos
vernaculares, definidos a partir de Rojo (2009) e Souza (2011). Convém ampliar
a discussão desses letramentos não regulados pelas instâncias oficiais, mas que
se encontram disponíveis nos muros da cidade, pois, conforme observa Kleiman
(2005) “[...] a escrita está por todos os lados, fazendo parte da paisagem
cotidiana [...]”. O grafite, reconhecido aqui como manifestação cultural e
prática de letramento característica de determinados segmentos urbanos
contemporâneos, inserido no contexto da paisagem urbana, foi apenas um exemplo,
no gigantesco universo de possibilidades de estudos sobre os letramentos
vernaculares.
Referências:
KLEIMAN, Ângela B. Preciso “ensinar” o letramento? Não basta ensinar a ler e
escrever? Campinas:
Cefiel – Unicamp; MEC, 2005.
ROJO, R. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo:
Parábola, 2009
SOUZA, Ana Lúcia Silva. Letramentos
de Reexistência: poesia, grafite, música, dança: HIP-HOP.São Paulo:
Parábola Editorial, 2011.
SOARES, Magda. Alfabetização e letramento: caminho e descaminhos. Revista Pátio,
ano VII, n° 29, fev./abr. 2004.
STREET, Brian. Perspectivas interculturais sobre o
letramento. Revista de Filologia e
Linguística
Portuguesa da Universidade de São Paulo. n. 8, p. 465-488, 2007.

Muito bacana!
ResponderExcluir