quarta-feira, julho 23, 2014

O que tem o grafite a ver com letramento?

Imagem da internet


Muitos que acompanham este blog já devem ter identificado o nosso interesse particular pelo grafite. Sabem também tratar-se de uma pesquisa acadêmica desenvolvida na UFBA - Universidade Federal da Bahia.
Primeiro, é importante frisar que nós apreciamos o grafite e todas as linguagens presentes nos muros, por isso nos debruçamos sobre essa temática. Segundo, nós da área de Letras, compreendemos o grafite como texto, recheado de signos (seja verbal ou não verbal), e que nos serve, portanto, como objeto de pesquisa.
Para entender a relação entre grafite e letramento, precisamos esclarecer, mesmo que brevemente, o conceito de letramento, em especial, de letramento vernacular, ao qual associamos o grafite.
Segundo Magda Soares, pesquisadora dedicada ao estudo do letramento, o conceito de letramento começa a ser usado a partir do momento em que o conceito de alfabetização tornou-se insatisfatório para se compreender a relação dos sujeitos com as práticas de leitura e escrita. Ou seja, o conceito vem para ampliar a noção de leitura e escrita.  Ao compreender tal prática dentro da perspectiva antropológica, por exemplo, conforme Soares (2004),  entenderemos que o letramento corresponde às práticas de leitura e escrita e aos valores que são conferidos a tais práticas em determinada cultura.

 Através do conceito de letramento, podemos entender melhor como os sujeitos fazem uso da leitura e da escrita na sociedade. Como vivemos numa sociedade pautada cada vez mais na cultura escrita, é comum que se multipliquem as demandas por práticas de leitura e de escrita não mais limitadas ao suporte de papel, mas também em outros suportes como os muros, que servem de suporte ao grafite. De modo que, trona-se insuficiente ser apenas alfabetizado, ao menos, nos termos tradicionais. Uma outra questão que nos levou a estudar o grafite, foi o fato de se perceber a disseminação da escrita pela cidade. Nesse sentido, Kleiman (2005) teórica que também se dedica ao estudo do letramento comenta:

[...] a escrita está por todos os lados, fazendo parte da paisagem cotidiana. Ela se faz presente através de bilhetes distribuídos por vendedores de balas nas ruas; do envio de torpedos SMS, de e-mails, de mensagens em redes sociais; de anúncios publicitários espalhados pelas cidades em pontos de ônibus, outdoors, etc.; das placas que orientam o trânsito; do caixa eletrônico onde sacamos dinheiro ou verificamos o extrato da conta; de placas que indicam o preço dos produtos em supermercados; de letreiros, folhetos; dos grafites, pichações que se espalham pelos muros das cidades; etc. (KLEIMAN, 2005, p.5,).

Soares vai definir letramento como sendo o estado em que vive o indivíduo que sabe ler e escrever e exerce as práticas sociais de leitura e escrita que circulam na sociedade em que vive: ler jornais, revistas, livros, saber ler e interpretar tabelas, quadros, formulários, etc. Aqui acrescentamos saber ler e escrever grafite.
Pensar o grafite dentro deste conceito é compreender as práticas sociais de leitura e de escrita sobre a nova perspectiva que se tem dado a ela, neste caso, nos referimos aos letramentos múltiplos (STREET, 2007; ROJO, 2009; KLEIMAN, 1995), já que, como é possível notar, lidamos atualmente na sociedade com diversas atividades de leitura e escrita. 
Ao entendermos o grafite inserido na categoria de letramento locais ou vernaculares, percebemos que, como afirma Rojo (2009), essa manifestação urbana corresponde às práticas de leitura e escrita que não são reguladas, sistematizadas pelas organizações formais da sociedade, o que contribui para que sejam frequentemente desvalorizadas socialmente e tidas como práticas de resistência.

Esperamos que a presente contribuição, possa fomentar os debates em torno do letramento e da cultura escrita contemporânea. Ou seja, o propósito evidente deste trabalho foi chamar a atenção para a necessidade de ampliação de estudo dos letramentos vernaculares, definidos a partir de Rojo (2009) e Souza (2011). Convém ampliar a discussão desses letramentos não regulados pelas instâncias oficiais, mas que se encontram disponíveis nos muros da cidade, pois, conforme observa Kleiman (2005) “[...] a escrita está por todos os lados, fazendo parte da paisagem cotidiana [...]”. O grafite, reconhecido aqui como manifestação cultural e prática de letramento característica de determinados segmentos urbanos contemporâneos, inserido no contexto da paisagem urbana, foi apenas um exemplo, no gigantesco universo de possibilidades de estudos sobre os letramentos vernaculares.

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Referências:

KLEIMAN, Ângela B. Preciso “ensinar” o letramento? Não basta ensinar a ler e
escrever? Campinas: Cefiel – Unicamp; MEC, 2005.

ROJO, R. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola, 2009

SOUZA, Ana Lúcia Silva. Letramentos de Reexistência: poesia, grafite, música, dança: HIP-HOP.São Paulo: Parábola Editorial, 2011.

SOARES, Magda. Alfabetização e letramento: caminho e descaminhos. Revista Pátio,
ano VII, n° 29, fev./abr. 2004.

STREET, Brian. Perspectivas interculturais sobre o letramento. Revista de Filologia e
Linguística Portuguesa da Universidade de São Paulo. n. 8, p. 465-488, 2007.

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