quarta-feira, junho 22, 2016

As sereias estão nas ruas

Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal / Matéria G1

Semana passada tive a oportunidade de ler uma interessante matéria sobre a grafiteira Deborah Erê, que reside e produz sua arte de rua em Manaus. A matéria, que havia sido publicada em março deste ano, parecia, então, chegar atrasada em minhas mãos, mas circulava fresca no compartilhamento dos amigos e amigas que sempre lembram da minha pesquisa com o grafite em Salvador.

Sem dúvidas, foi ótimo ler a matéria e conhecer um pouco mais sobre a arte desenvolvida pela Deborah Erê. Sua fala marca bem o posicionamento das mulheres que produzem grafite em um cenário, ainda, predominantemente masculino e rodeado do machismo se não explícito, velado:  "É como se nós precisássemos provar que somos boas. Sempre ouço alguém falar 'prova que você sabe fazer mesmo', que duvida do meu trabalho só por eu ser mulher. Isso já melhorou muito, já somos bem acolhidas, respeitadas, mas a gente sabe que ainda está ali, velado. A gente tem que passar por cima disso", comenta a grafiteira em reportagem ao G1.
Grupo 'Golden Girls', do qual Deborah Erê faz parte / (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal) / Matéria do G1

O empoderamento das mulheres, através da arte urbana, revela o quanto elas estão atentas as várias opressões sofridas no cotidiano, sejam por serem negras, gordas ou velhas, como se, qualquer dessas “categorias”, fossem motivos de depreciação por uma parcela preconceituosa da nossa sociedade.

O grafite produzido por Deborah Erê, suas “Senhoras sereias”, personagens, cujas cores e formas representam mulheres idosas radiantes me fez pensar, imediatamente, nos grafites produzidos pela grafiteira Sista K, em Salvador. Com um propósito semelhante ao de Deborah Erê, Sista K, que se define como grafiteira, gorda e vegana, faz questão de retratar suas Sereias gordas  e negras pelos muros da cidade.
Sista K em ação no Encontro de Calangos 2016

Com a rica expressão artística das mulheres que produzem grafite, temos a possibilidade de enxergar as fissuras possíveis no cotidiano acinzentado que nos cerca. Seja em Manaus ou em Salvador, uma coisa é certa: as sereias estão nas ruas.

Personagem de Sista K no Encontro de Calangos 2016.

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