quarta-feira, maio 01, 2013

A tentativa de um Bomb


Região da Baixa dos Sapateiros, Avenida José Joaquim Seabra. Pintura em portão de loja em frente a loja Fenícia.

Em uma tarde de sexta-feira, conversava com algumas amigas sobre temas variados, ouvíamos uma banda alternativa (seja lá o que isso queira dizer), a qual tocava no pátio da universidade. Lembro que antes disso, ainda em casa, saí com a mochila carregada de caderno, textos e quatro latas de spray – violeta, lilás, branca e laranja, eram as cores. Queria naquele dia produzir um Bomb em algum lugar da cidade, não sabia se o faria, mas para garantir, carreguei as latas comigo.

De repente, já ao final da tarde, minha namorada surge com mais alguns amigos e me convida para ir ao Pelourinho. Diz que está rolando uma banda legal e que gostaria de ir comigo. De início até hesitei, pois estava bacana o diálogo com minhas amigas e não queria ficar em nenhum lugar abafado, amontoado de gente. Mas... cedi. Fomos ao tal som, curtimos um pouco e quando resolvemos ir já era tarde da noite, na verdade, era por volta das 22h.

O ponto de ônibus estava cheio de gente, para minha surpresa. Só que olhando adiante, para o lado direito, sentido fim de linha da Barroquinha, estava tudo deserto, exceto um mínimo de transeuntes que circulam por lá invariavelmente. Não temi o ponto lotado, falei baixinho para minha namorada que faria uma rápida pintura em um dos portões das lojas. Ela me olhou com olhos de repreensão, temia o ponto lotado de gente. Pisquei o olho e tentei tranquiliza-la, disse que estava tudo bem que seria rápido e que ninguém iria intervir.

Estava totalmente equivocado. De fato, o pessoal amontoado no ponto apenas acompanhava com olhos curiosos a minha rápida movimentação – agachar, sacar as latas da mochila e de repente lançar um jato de tinta em spray naquele portão. Porém a surpresa vem do inesperado. Um sujeito escondido na escuridão do lado direito da rua, daquela que mencionei acima – sentido fim de linha da Barroquinha, gritou – Hei! Hei! O que você está fazendo aí?! E ao mesmo tempo em que proferia essas palavras vinha correndo em minha direção. Primeiro tomei um susto desgraçado. Pensei: “fudeu é os homi”. Olhei atentamente e vi que se tratava de um jovem, vestido de forma casual, bermuda, chinelo, e uma camisa surrada. Aparentava ser daquela área.

Parei imediatamente a pintura, não corri (esse havia sido o meu primeiro pensamento, quando me dei conta de que não estava sozinho, desisti). Falei em tom quase inaudível para minha namorada que se afastasse de mim, fingir não me conhecer. Entretanto ela não se afastou. Paralisada. Ela estava visivelmente assustada, seu rosto ficou muito pálido, podia ver o medo em seus olhos. Tentei me manter firme.

O sujeito chegou esbaforido – Que cê tá fazendo aí maluco? Eu demonstrei estar tranquilo e falei – Calma aê, irmão. Eu não tô pichando (essa é uma das desculpas mais usadas para evitar o “rodo”) nada não, parceiro. Vou fazer um trampo aqui, um grafite. Ele em tom brabo questionou: Aqui, não, véi! Quer me fuder, é?! Essa área aqui é minha, eu tomo conta dessas lojas. Aqui não pode nada, parceiro. Grafite, pichação, nada! E prontamente pegou o celular e ligou para um parceiro dele. Ao mesmo tempo, eu rapidamente guardei as latas, havia uns riscos que nem sequer formavam completamente o “S” de SLIK2. Ele deu as costas bradando com alguém ao celular. Eu sumi.

Infiltrei-me na multidão do ponto e minha namorada, um pouco trêmula, próxima a mim também. Ela insistia em pegar o primeiro ônibus que passasse. Eu continuei tentando demonstrar calma e disse que não era necessário. Lá vinha o parceiro do cara que acabara de interromper o meu bomb. Ele vestia um colete preto, atrás havia escrito “segurança” em amarelo. Ele olhava para os lados tentando me encontrar enquanto o sujeito apontava para os meus riscos no portão e bradava. Temi a pochete volumosa que ele possuía. Minha namorada muito chateada bradava – eu falei, eu falei que ia dá merda.

Acho que posso dizer que dei sorte naquele dia, não rodei literalmente, pois sei que a coisa poderia ser bem pior. Meu ônibus parecia demorar uma eternidade. Mas, na verdade, nem demorou muito. Entrei no ônibus Estação Pirajá e logo me senti aliviado. Esse sentimento surgiu muito mais pela inquietação de estar com a minha namorada naquela situação frustrante. Porque sei que no fundo no fundo, naquele momento queria mesmo era impressioná-la, sendo totalmente subversivo e corajoso. O que não aconteceu. Vivi um rápido momento de adrenalina e muita confusão. 

Um comentário:

  1. É não deu para fazer o "Bomb", mas a tentativa gerou um belo texto (muito bom o ritmo de sua narrativa). Grafite sem a tal da "subversão" é o quê mesmo?!

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