Como descobri o grafite - II
Crônica por Antonio Marcos Pereira
Como disse em outro texto, foi só quando eu tinha uns dezoito anos que vi pela primeira vez grafites que consistiam em produções visuais muito elaboradas, ambiciosas e sofisticadas, com muita cor. Minha conexão inicial com o gênero grafite se deu aqui em Salvador, por força do trabalho pioneiro do Miguel Cordeiro e seu personagem Faustino. Foi só em 1989,quando fui a São Paulo pela primeira vez, que, de dentro do ônibus, passando por baixo de um viaduto, vi desenhos mirabolantes, coloridaços, ocupando todo espaço de parede disponível. É possível que eu tenha visto um trabalho dos Gêmeos – hoje, muito famosos mas, naquela época, especialmente para mim, completamente desconhecidos. E lembro também de um letrado em Wild Style muito vivo. Na época, claro, eu não tinha o vocabulário para fazer essas associações e discriminações: não sabiam quem eram os Gêmeos, nem sabia que havia categorias para os tipos de letra que eram utilizadas nas produções de grafite. Mas a memória ficou, pois foi forte e, depois, à medida que fui me interessando pela coisa e lendo a respeito, surgiu a possibilidade de situar melhor o que vi e que tanto me impressionou.
O teórico russo Viktor Schklovski uma vez definiu o fundamento da experiência estética com a expressão “estranhamento”. Essa experiência, sugere ele, é aquela que é capaz de desestabilizar nossos esquemas habituais de percepção, gerando um “Que zorra é essa?” que fica com a gente, que nos chama a atenção, pois é o lugar do novo, do excepcional, do estranho. Nesse dia, passando debaixo do viaduto, dentro do ônibus, e olhando pros grafites imensos, não tenho dúvida de que vivi uma experiência assim.
Claro, esse incidente fazia parte de um conjunto de outras experiências que eu estava vivendo naquele momento. Embora eu tivesse nascido e crescido em Salvador, uma capital, uma “cidade grande”, a dimensão de São Paulo era uma coisa completamente inédita para mim. A complexidade dos esquemas de trânsito, as distâncias imensas que se percorria dentro da cidade, o tamanho das instituições públicas. Havia também os tipos mais variados de pessoas na rua: os aglomerados na calçada, na região das Galerias do Rock, com o pessoal do hip-hop ouvindo um som e dançando; grupos de punks com corte moicano ou cabelo verde; peruanos meio hippies tocando flauta e pedindo um dinheiro na entrada do metrô; inúmeros homens apressados de terno. Foi só quando fui a São Paulo que, a me ver diante dessas coisas, descobri de fato o que quer dizer “metrópole”, que hoje entendo como essa barafunda que mistura muita coisa e gente aparentemente incompatível, promovendo as mais improváveis convivências. E, no meio da metrópole, como parte das inúmeras marcas na pele da cidade – outdoors, cartazes, letreiros luminosos, pixações – estava o grafite.
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